terça-feira, 3 de outubro de 2017

A minha pena

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Venho tentar reanimar-te - apenas tentar, como quem me obriga. Dar-te sangue novo, se é que ainda me correm palavras nas veias. Nada sinto na minha pena. Nem sequer um lamento, nem tampouco a faísca de uma invenção. A escrita ficou para os outros. Resta a sensação de me ter transformado nalguma coisa técnica. Clínica. Sou cirurgiã de frases. A inspiração e o dom do faz-de-conta andam anestesiados, perderam o sentido, sofreram um desmaio geral, talvez vitalício. Poderia jurar que jamais escreverei um livro. Um texto, sequer, que me pertença. Nada vejo no meu futuro, que me sirva de coração, ainda que transplantado. Ainda que artificial. Sim, ando sem consciência. Ou talvez o inverso, inteiramente sem inconsciência. Sou máquina munida de braços compostos de uma qualquer fibra, capaz de executar recortes e esbater cicatrizes que não são as minhas. E enquanto me vou solidificando numa cura modesta do que me é estranho, sou um paciente com uma grave doença, a pior de todas, sem cura: a falta de alento - ou talento - para se curar do que talvez nem seja doença, apenas juízo. A minha pena permanece adormecida? Pois que durma, mesmo um sono eterno. Sem pena minha.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Salvação


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Um Deus Desconhecido escutou as minhas preces de ontem, que eram sem fé. Pousou-me na areia, no dia seguinte, para que eu pudesse recordar a rebentação das ondas, o aroma das algas, os reflexos infinitos de sol no mar, debaixo do corpo uma toalha verde-água, nas mãos o livro de Steinbeck, ao meu lado o homem que partilha a minha vida, quando ambos nos cruzamos no mesmo universo de vontades, no mesmo tempo, no mesmo lugar.
Um fim de tarde perfeito, quando o vento já arrepiava a pele: ameijoas à Bulhão Pato e um vinho branco alentejano, na companhia de amigos que, em boa hora, encontrámos, antes de entrar na marisqueira cujos donos tratamos por "tu", apesar de o ritmo de visitas e de consumo ficar muito aquém daquele que seria desejado.
Há dias que são uma espécie de salvação, por mais modestos. Um passo atrás no precipício de uma não-vida.
Hoje vivi.  

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Suspiros

A escrever sem pensar no que tenho para dizer, receio descobrir-me seca, nada existir digno de dizer. Avoluma-se uma não-vida, que me esvazia, a calar todas as letras. Fico à espera que algo aconteça e nada, é uma paragem cardíaca nos dedos, a paralisia do pensamento, o desalento levou a luz inteira e na penumbra não consigo caminhar sem cair. Deixo que os dedos dancem no teclado, é um cliché, um cliché, fugiram-me as palavras mais húmidas, tudo o que tenho chega-me aos dedos desidratado.
Agosto a um terço, os outros, que vivem, a banhos, e eu em seco, só a água insossa e o vinho, o café e o chá, o sumo, sem onda nem espuma, sem barcos nem velas, sem algas ou o piar das gaivotas nem nada, sem braçada nem sol, da esperança, o queixume. Mais um Verão desperdiçado. Vida sem vida, só o suspiro que traz a miragem da beira-mar, onde não estou.
 Rise & Shine (28 photos) (23)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Vida

Depois de um serão divertido, entre amigas, saltitando de casa em casa, na Ericeira, comendo e bebendo, mais bebendo que comendo, retomo o trabalho de manhã, ainda a reunir as partículas.
A minha mãe faz 83 anos. Falámos um bom bocado ao telefone, como tantas vezes fazemos. Contamos as novidades uma à outra, ela diz, mais uma vez:
- Pois vocês sabem sempre tudo, por causa da Internet.
O marido foi passar o dia a Lisboa, deixei-o ir, mandei entregar beijos aos amigos com quem iria jantar mas já não vou. À tarde, fazendo por ignorar o fogo que devora o País e as janelas da casa, que mostram um dia perfeito de verão, aguardo o pdf completo do próximo número da «CRISTINA», a fim de o correr de alto a baixo, para que possa seguir para a gráfica e estar nas bancas, daqui a uns dias.
O meu filho diz-me que não fuma há duas semanas e que vai começar a ir às aulas de código. Telefonou-me só para dizer isso:
- Sabia que ias gostar de saber.
Entretanto, acabo de ver a série «Narcos», da Netflix, quando finalmente capturam Pablo Escobar. Faço a última - juro, a última! - leitura do meu primeiro romance. Os cães fazem-me companhia, a Bolota dá-me a pata de vez em quando, como quem diz, Estou aqui, não te esqueças.
Gosto da minha vida. Alguma coisa devo ter feito bem, para chegar aqui. Com amor, a quem contribui para ela.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

e-manuscrito

Uma ideia excelente e ousada. Veremos quantos autores aderem a este projecto. A coisa boa disto, é que, uma vez lido por apenas 2,99€, se um leitor gostar muito da obra pode sempre comprar o livro tradicional, que é o que fazemos, afinal, quando o mesmo acontece com um livro emprestado, ou trazido da biblioteca, certo?

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Antes a vida

É com surpresa que me apercebo de que não escrevo aqui há mais de um mês.A vida a passar-me por cima, como onda, eu a tentar não me afogar, chegar inteira à areia quente e poder, enfim, respirar a outro ritmo. Um novo trabalho a partir de casa, com carácter regular: a nova revista «CRISTINA», de que sou agora Copy Desk, ou seja, revisora. Revista por mim, de uma ponta à outra. Orgulho-me de participar neste novo projecto. Grata por ter trabalho, para mais, a partir do meu "escritário", em casa.

Surgem convites para cantar em trio e em quinteto. Bons músicos, uma alegria e um privilégio, sempre, ainda que o mereça.

A editora envia-me as primeiras propostas de capa para a 2ª edição d' «A Ilha de
Melquisedech - Mnemon». Uma edição enriquecida com novas ilustrações e texto revisto por mim.
fundo para a ementa do Festival da Estação Dourada
Dou os últimos (?) retoques no meu primeiro romance. Difícil, deixá-lo ir. Ainda não está a meu gosto, nunca estará. Mas aproxima-se o dia em que terei de escrever FIM.


Cansaço. Um cansaço bom. Antes os dias a transbordar, do que a vida vazia. Apetece o mar, ser outras pessoas, outros eus. Parar. Mas parar seria afogar-me de novo.
Outra vida, outro eu.

sábado, 17 de junho de 2017

Fora do Mundo

O corpo escorre, a verter água por todos os poros. Procuro desesperadamente um leque. Encontro-o, enfim. Parto em busca de um segundo, juro que o tenho. Na mira, uma oferta para amanhã, à minha colega de feira, mas fico-me pela intenção, que o segundo não me aparece. Lavo um chapéu, a tirar-lhe a poeira. Não esquecer. Não esquecer de o levar comigo. Talvez até um borrifador com água. estou por tudo, o dia abrasa e amanhã Lisboa, uma vertigem de livros pelo meio da miragem, ondas de fogo a distorcer a imagem que os olhos vêem. Começo a escrever depois das sete, antes disso a cabeça não obedece, amuada com os 36º graus sobre a pele e no ar que respiro. Quer ficar de molho, a mente, em água fresca, mas o corpo desde manhã que anda para cá e para lá, teimando em não se render.
Amanhã é dia de feira, o último, e a minha primeira vez com a poesia, no lugar da ficção. Confesso-me só, pregada num título, a fingir a dor de um exílio que deveras sinto. A tarde inteira em apelos, venham, apareçam, e o desconcerto de implorar tanto, quando aos outros dou tão pouco, fechada neste paraíso tornado prisão. Fora do Mundo.



sábado, 27 de maio de 2017

Consolos

Atravessámos o eucaliptal e fomos entregar um artefacto que nos foi emprestado, para resolver um problema no automóvel. Regressámos de casa dos vizinhos como tantas vezes acontece, carregados com nêsperas e morangos, alhos, rúcula, alface, alho francês, couve roxa, pés de cacto e brócolos, tudo acabado de arrancar à terra. Os quatro cães sempre de roda, felizes por terem mais companhia. Parecia que tínhamos ido ao mercado. Estes encontros dão qualidade de vida aos nossos dias e aquecem-nos o coração.
Depois, chegar a casa e regressar à leitura de um livro que terá segunda edição e algumas surpresas.
Para breve está marcada uma ida à Feira do Livro - dia  4 de Junho, Domingo. às 15h - a ver se os últimos exemplares da 1ª edição encontram dono. O marido entrega-se ao estudo do saxofone, o seu instrumento. Os cães a meus pés, na modorra da tarde cinza. A música encantada de Danny Elfman, nos meus ouvidos.
A vida pode estar longe de ser perfeita, os problemas existem, alguns de raízes profundas, mas há dias em que, apesar de tudo, há um consolo do que vamos tendo e do que ainda está para vir.



terça-feira, 23 de maio de 2017

Michael Franks

"Time Together", um tema composto em 2011, para o álbum com o mesmo nome, em homenagem a Flora, uma cadela que o casal encontrou. Isto é o amor aos cães. Um ternura de ver e ouvir. Os direitos desta canção foram oferecidos à Hearts United for Animals.

Flora, though you sleep
On our guru's lap now
All we see everywhere is you
As we recall our time together
Lucky is how we felt
The day we found you
And we were such a happy three
O how we loved our time together

Why must the Present
Turn to Past so fast?
The disappearing Now
I wish I had a golden bough
To bring you back somehow

Someday when all our hearts
Are reassembled
Love will connect us once again
And we'll resume our time together

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Garden

Winter's hard to rhyme
We're prisoners in some icy pantomime
Just waiting for the wind to change his mind
And sing us green
April starts to whisper to the trees
I hoe and you plant the trees
Canterbury Bells begin to ring
The sparrows are stealing string
Hollycocks and foxglove to the knee
Now life's a major key
We've got mud between our toes
This is how the garden grows
Midnight in July
We see the season spread across the sky
We wake up to a nosy dragonfly
Against the screen
You just love to bite me where it shows
You kiss me
Then hide my clothes
Running through the sprinklers nearly raw
We've just disproved Newton's law
How can I break even with the weeds
In love so beyond my needs
Blossoms on you Mama's rose
This is how the garden grows
Lyrics: Michael Franks, "How the garden grows"
Paiting: Monet

quinta-feira, 18 de maio de 2017

À mesa

(...)
Quero a minha mesa macerada, peculiar
A toalha manchada de nódoas de vinho vertidas
Dos copos de Beaudelaires e Kafkas,
De Pessoas, Modiglianis e Rodins
Vindimando-me as manhãs!
Heterónimos de novas letras,
Cachos encorpados de musas,
Parras, uvas, viúvas,
Destilando capitosos raciocínios,
Decantando a ponta dos galhardetes,
Engaços na curva macia de um prato de farfalle.
Quero o peito fermentado de abraços,
A casta risonha de artesãos licorosos
Que não esqueço, que agarro e adormeço,
Quando o dia rompe como lacre,
De mortos sempre longos na minha boca.
A travessa molhante, matando a fome à sede,
Alimentando, em provas cegas, ideias, puras
Iguarias.
(...)

(Vera de Vilhena, excerto adaptado in «Fora do Mundo», Poética Edições, 2014)

Imagem: «Hipp Hipp Hurra!», Peder Severin Krøyer (Noruega-Dinamarca, 1851-1909)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A culpa


«Um menino rico num colégio privado, a promessa de vida fácil. Um rapaz tornado marginal, desconexo, e de repente era vê-lo a ganhar um outro estatuto, a representar outra coisa. Já não era “O Guilherme”, era sim “O Guilherme que se matou”. Para sempre adicionado aquele cognome, aquele peso enorme, aquela sombra de ocaso, distendida à luz do poente, a agigantá-lo, a torná-lo imenso, maior do que todos nós. Não, já não era ele e a sua vida inconsequente, era alguém que fizera a mais exótica e misteriosa das viagens, para ir ter com o Nada, e nos deixara engasgados de arrependimento, com todos os insultos que largáramos sobre ele, no início do ano lectivo, até o aceitarmos. E ele a escrever na carta que ali, no grupo de teatro, fora feliz. E eu a pensar quão infeliz se pode ser, em surdina. Enganou-nos bem. Um actor de primeira, no palco da escola. Uma lição extracurricular.
Não parecia verdade, aquela notícia:
− O Guilherme morreu, matou-se…
Não, não podia ser, ninguém morre assim, com quinze anos. Ninguém escolhe morrer sem ter vivido. 
Mas era vê-lo ali, no caixão, na Igreja da Madre Deus, sem deixar que fosse boato. Lenço de linho sobre a cara, por causa dos efeitos do tiro que os não-sei-quantos que tratam dos mortos não conseguiram disfarçar. Ou então não estava assim tão mal, mas a família não quis mostrar. Afinal, ele até era feio, dificilmente estaria melhor depois de morto. É crueldade, eu sei, era assim que o tratávamos, isto foi só para recordar a nossa imbecilidade. Idade imbecil. E na capela da igreja a Mãe em choque:
− O caixão é muito pequeno! Eu avisei que o caixão era pequeno, ele ainda está a crescer!
E o marido a agarrá-la, e a irmã mais velha a chorar, e as nossas colegas de turma também, todas a chorar por ele e por nós, a culpa escorrendo pelo rosto abaixo. E a Mãe junto dele, a indicar o comprimento das calças cinzentas:
− Olhem para isto, vêem? Estão curtas, vai ter frio! Vai fazer má figura quando chegar ao céu...»

(Vera de Vilhena, excerto do próximo livro)

Photo credits: Dave King

domingo, 14 de maio de 2017

Se um dia

Esta noite sonhei que milhões de portugueses se mantinham colados às televisões do mundo inteiro, aonde quer que vivesse um português, mas não era para ver futebol. Nem desastres. Nem eleições. Sonhei que andavam há semanas, imagine-se!, dançando ao som da mesma valsa ad libitum, enamorados por uma voz, o condão de ser pura em cada verso, cantando por todos nós, salvando-nos, como se os corações do mundo se fossem quebrar em dois, a qualquer instante, transformados em cristal, a respiração em suspenso, o braço dado - Só mais uma volta, não caias, salva-nos! -, rogando-lhe que entregasse todas as palavras aninhadas assim, na ternura das cordas, e num piano conduzindo a melodia de veludo que ninguém consegue abandonar. As salvas de palmas e os votos, neste meu sonho, foram para aquela que era a poesia cantando o amor, e o país inteiro, a Europa e o mundo, todos se rendiam, no meu sonho, à súplica de um mendigo com voz de frágil pássaro, flautista de Hämelin seduzindo e levando consigo todos aqueles capazes de amar pelos dois.
E ainda não tinha acordado, eu, quando a valsa dos irmãos, que todos unia numa prece sem Deus, avançava e subia até à dimensão da esperança, infiltrando-se, camada por camada, na pele de quem por ela se deixava adormecer, para sonhar também. E uma voz dentro de mim dizia:
-  Seria tão bom, tão bom que um dia fosse possível, a um poema simples, inteiro, sem demasias, vencer...! Ser escutado com o coração e a mente, deixando para trás o fogo de artifício, ganhando a todos, até aos de valor, a dar peso à nossa conquista...!
Na lenda que o meu sonho ia tecendo, a feiticeira criadora nunca deixava cair o duende da floresta, imerso no seu cântico enfeitiçado:
- "Cuida das palavras, meu irmão, não te distraias, não te percas no caminho, repara que despertámos as pedras e encantámos as fadas, vamos embalar o seu espanto e mostrar que é possível dizer tudo na penumbra de um beijo".
Foi então que acordei. As nossas pessoas, milhões de gente, de muitas línguas, ainda traziam os lenços e os olhos molhados, o vinho e o champanhe nos copos, as vozes roucas e o coração cheio. À luz lilás do amanhecer, pequenas gotas de orvalho eram resquícios da festa. No ar o cheiro morno da felicidade.
Despertei e fui dar de frente com um sonho acontecido.
Se um dia alguém perguntar por nós, digam que nos fomos salvar.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Serão

A meta de um novo livro parece fugir, à medida que vou correndo para o fim. A afastar o sopro do desalento tenho os cães a meus pés, e a chuva caindo com violência, batendo na vidraça do meu escritório, como quem grita, Avança e não te atormentes mais. Stacey Kent canta aos meus ouvidos com um sorriso infantil na voz, La Vénus du Mélo, indiferente ao meu cansaço. Quando a chuva se interrompe revela uma lua gorda, vestida de noite, a bainha uma fileira de luzes trémulas, cor de mel, os torreões da basílica são borbotos de uma saia de lã, picando o céu azul-cobalto. E eis que chegam os violinos de La Javanaise, a evocar, no timbre doce de Madeleine Peyroux, a valsa de Luísa e Salvador Sobral, que tem o País quase inteiro de si enamorado, agarrado pelo coração,  amando pelos dois.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Na fronteira


Ninguém na minha família, que me lembre ou saiba, passou verdadeira fome. As gerações anteriores, aliás, viveram com um luxo considerável. Nasci em 1969, andava pelos cinco anos de idade quando se deu a Revolução. Não percebi nada mas, à medida que os anos foram passando, a minha vida foi sofrendo transformações. Nas estantes de casa havia de tudo, muitas das obras em francês, de autores que fizeram escola e marcaram uma época, como os filósofos Sartre e Simone de Beauvoir, os escritores Alves Redol, Fernando Namora, José Cardoso Pires. Na aparelhagem «Sharp» escutavam-se vozes francesas que cantavam o inconformismo, como Léo Ferré, mas tudo isso constituía, a meus olhos, uma extravagância, uma incongruente solidariedade para com um universo longínquo. Não éramos vítimas do Estado Novo, no máximo uma chamada de atenção num café, por parte de um agente da PIDE, como quem diz, não se expanda muito, se não quer problemas.
Na nossa casa havia um cinzeiro encarnado de metal, com o símbolo do PS, o punho fechado. E nos álbuns de fotografias páginas e páginas com a multidão nas ruas, no 1º de Maio, a minha mãe encostada a um Jeep da GNR, de cravo metido na casa de um botão do dufflecoat beje, de pura lã virgem, com etiqueta da marca francesa «Delfieu», com loja situada em Arroios. Lembro-me dos lenços de seda que vinham de Paris, de todos os requintes que se foram esfumando, enquanto se derramavam os anos feitos de liberdade. Depois entrámos na Europa, já não era preciso trabalhar os campos, todos podiam ser doutores. Subiu o número de carros de luxo a circular nas ruas, subiram os empréstimos, o consumo disparou. Já ninguém cose os buracos das meias com um ovo de madeira. Já ninguém manda arranjar um pequeno electrodoméstico. Compra-se outro. É barato. Já não é preciso ir de férias à terrinha, nas muitas estradas macias que tem agora este pequeno Portugal, não queremos que vos falte nada, assim que nos deixarem salta um TGV, e podemos hoje ir a Paris, a Roma, a Veneza, a Barcelona, sem precisarmos de levar passaporte nem nada, só os cartões de crédito e os telemóveis com as nossas câmaras sofisticadas, para as selfies, e mostrarmos no facebook que vivemos imenso. Depois há a realidade. O crédito mal parado, o desemprego, o podermos refilar à vontade sem que, na verdade, de pouco sirva para quebrarmos a corrupção e o aproveitamento, a incompetência e o oportunismo de tantos, em lugares de poder. Agora os pobres e os endividados espalham-se por todas as classes. É uma pobreza democrática.
Até hoje tenho sentimentos de contradição, encontro-me na fronteira de Abril, sem saber bem o que fazer com estes cravos que me deram. Mais me parecem rosas perfumadas e coloridas, onde vamos ferindo os dedos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Rogério Charraz

É um alívio, isto, lembrar que nem tudo neste país é um banho de mau gosto.
Música: Rogério Charraz
Letra: Pedro Branco

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Consolo


Há factos absurdos que nos mostram a face quase aleatória do mundo. Ao mesmo tempo que nos relembram a importância da modéstia, dão consolo e esperança, a quem procura uma oportunidade. Sobretudo, gritam, a quem desespera por tanto esperar: não desistir, não baixar os braços.

Walt Disney foi demitido de um jornal, por não ser criativo nem ter boas ideias. 
Os Beatles não tiveram hipótese com a Decca Records, por "having no future in the show business"
Einstein foi expulso da escola, por ser "mentalmente lento".

Na literatura:

«Lolita», de Nabokov: «Esmagadoramente nauseante, mesmo para uma freudiana iluminada. A coisa toda é um cruzamento de incerteza entre a realidade hedionda e a fantasia improvável. Muitas vezes torna-se um devaneio neurótico selvagem. Eu recomendo que ele seja enterrado sob uma pedra durante mil anos».

«O Deus das Moscas», de William Golding, foi rejeitado por 20 editoras.

«E Tudo o Vento Levou», de Margaret Mitchell - rejeitado 38 vezes.

«O Diário de Anne Frank» - rejeitado 15 vezes.

«Mulherzinhas», de Louisa May Alcott - a editora recomendou à autora que se dedicasse apenas ao ensino.

Beatrix Potter viu o seu «Peter Rabbit» recusado 69 vezes (!!!). Acabou por fazer uma edição de autor modesta, a preto e branco, de apenas 250 exemplares. Um amigo da família, Canon Hardwicke Rawnsley, ajudou-a a rever a história e mudou-a de prosa para verso. Foi ele que distribuiu cópias do livro por editoras de Londres e uma delas, a Frederick Warne & Co, que já tinha rejeitado as histórias de Beatrix, decidiu publicar o que apelidou de "livro dos coelhinhos". O livrinho saiu no dia 2 de Outubro de 1902 e teve um enorme sucesso, vendendo 20 000 cópias até ao Natal desse ano. A partir daí, surgiram novas histórias, personagens e livros. Miss Potter tornou-se na autora de livros infantis mais vendida de sempre.

Após receber várias negativas de diversas editoras, E. E. Cummings escreveu o livro «No Thanks», nomeando todos os editores que lhe negaram publicação.

«Dune», de Frank Herbert, um dos maiores clássicos da ficção científica, foi rejeitado 23 vezes.

Após ser rejeitada por 6 editoras, com o seu primeiro livro («O Misterioso Caso de Styles», Agatha Christie teve de aguardar 4 anos, até ter o seu primeiro livro publicado.

James Joyce, o autor de «Ulisses», foi rejeitado 22 vezes.

E a minha «nega» preferida:
«Harry Potter e a Pedra Filosofal», de J. K. Rowling
Rowling foi rejeitada 12 vezes e ainda recebeu um insulto de um dos editores, ao recomendar que a escritora “não perdesse nem mais um dia de trabalho”.
Carta dirigida a J. Steinbeck







sábado, 15 de abril de 2017

Sintonia

Fairy Lights:

Resistir ao caminho mais fácil, que nunca é o melhor. Ainda que seja tentação em nós. Escrever, cortar, reescrever, fugir das palavras rasteiras, até que, frase em frase, tenhamos conseguido a sintonia entre o pensamento e a mão. Essa comunicação é das metas mais difíceis de conquistar, impedir que, algures no caminho, a ideia pura se transforme num pálido reflexo.

terça-feira, 28 de março de 2017

Perdoa-me

© Brooke Shaden, "Moving in"
De tão abandonado, o meu blog já não reconhece a própria dona, lança-me com aquela barra de aviso de cookies, onde temos de clicar em "entendi". Cliquei. E compreendi-te, blogue, transformei-me numa estranha, num visitante como qualquer outro, talvez alguns deles te sejam até menos estranhos do que eu. E se te prometer maior fidelidade, perdoas-me? Se eu vier visitar-te e acrescentar-te, se não como antes, pelo menos com maior dignidade, dás-me perdão?
Nem desculpa tenho para esta indiferença, tem sido apenas isso, indiferença, inércia, a sensação de nada ter que  valha a pena ser dito. Vazia de ideias, despejada de palavras, o que sempre acontece quando estou preste a terminar um livro. Isso zanga-te, sente o ciúme virtual, tu, uma espécie de casamento, de relação idealmente constante, regular, ultrapassada pela paixão de uma relação inédita e repentina, que urge satisfazer, de capricho em capricho, num impulso egoísta.
Em breve irei apresentar-te esta espécie de amante de folhas, juntarei aqui, pelo menos, o seu rosto. Até lá, paciência, meu amigo, é apenas isso, o silêncio e o capricho de um novo livro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Algo mais

© Brooke Shaden Photography
Sem mal sair de casa durante semanas, cuidando obsessivamente destas paredes e de tudo o que elas albergam, cúmplice de uma prisão que eu própria vou cinzelando, pasmo perante o sentimento de apatia quanto aos meus projectos sem alicerces, e de cujo propósito desconfio. A pergunta que apresento ao futuro - para quê? - não me traz resposta. E falta-me a paciência a que a espera obriga. Não apetece a desilusão, o desmoronamento da esperança, o eterno retorno ao optimismo, à desvalorização da vitória, à celebração do quase nada que vou conquistando, mera defesa dos fracassados. Provavelmente é apenas a falta de sol, de calor, de rua, de gente, a arrefecer-me a vontade e o ânimo. É urgente acender uma fogueira em mim, alimentá-la com algo mais do que a cinza de alguns sonhos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Novo ano

Já que não me é dado salvar para todos nós o mundo, que parece cada vez mais sem salvação, tento salvar o meu. Os dias decorrem enquanto faço por cumprir algumas resoluções mais ou menos íntimas. Das menos, procuro recuperar a dignidade da casa, dar-lhe várias horas do meu dia, e tempo é um privilégio de que disponho, nesta carruagem sem carris. Quanto ao frágil corpo, vou tentando devolver-lhe algum recorte, regressar às caminhadas que, além de tostarem ao longo da estrada os excessos ingeridos por culpa do frio e da gula, possuem o benefício de servir de terapia e desbloqueio. A preguiça parece ter-se afastado, dando tréguas à culpa. Só falta o corpo ser capaz de acompanhar a nova disposição.
O trabalho continua a cair-me no colo e só posso sentir gratidão. Trabalhar é urgente. Pagar as contas, construir uma pequena estufa de ervas aromáticas, plantar novas petúnias nas floreiras vazias, trabalhar, trabalhar, a fim de conquistar o milagre de sobrar alguma coisa, tempo e moedas para que possamos fazer algo mais do que trabalhar. Dar fim ao próximo livro. Apreciar o alívio que isso traz. Falta-me a batuta para reger as horas, chegar ao final do dia com o condão da escrita por derramar. Para já, o tempo faz batota comigo, finta-me, prepara as suas armadilhas. Mas hei-de domá-lo, subjugá-lo à minha vontade, hei-de ser maestrina dessa orquestra composta por semanas, dias, horas, minutos, como partituras de um calendário.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Então e o blogue?

E o blogue, Vera? Não tens escrito nada no blogue... - Dizem-me.
É verdade. E o blogue? A culpa é do facebook e da página oficial, e dos gadgets com câmaras fantásticas, a cujas fotografias acrescentamos legendas que acabam por servir de mini-diários. Truques e partilhas que levam tudo.
Até que ponto faz sentido manter um blogue generalista nos dias de hoje?
Só para dizermos que temos um blogue? Será que acrescenta alguma coisa aos dias de alguém?
Pergunto-me.
Visitas: 133 341 - estagnado nas cento e trinta e tal mil há demasiado tempo, como a leitura de um livro que não avança, paralisada na mesma página, em desamor.
Talvez o ano novo sirva de pretexto para lhe restaurar a vida.
Talvez a mensagem de hoje seja já isso mesmo, um pedido de desculpas, a tentativa de lhe retirar a pó e as teias de aranha. E depois há umas poucas almas - muito poucas - que não têm conta no facebook.
São essas pessoas que me perguntam:
Então e o blogue?
Talvez precise de um desafio, um tema, um qualquer projecto, como a Julie que deu origem ao filme maravilhoso que revi pela enésima vez, "Julie & Julia".

sábado, 3 de dezembro de 2016

Adeus, Luísa

ASAS - de Maria Luísa Baptista
É no teu corpo que invento
Asas para o sofrimento
Que escorre do meu cansaço.
Só quem ama tem razão
Para entender a emoção
Que me dás no teu abraço.
Eu quero lançar raízes
E viver dias felizes
Na outra margem da vida.
Solta os cabelos ao vento,
Muda em riso esse lamento,
Apressemos a partida.
Aceita o meu desafio,
Embarca neste navio,
Rumo ao sonho e ao futuro.
Corta comigo as amarras
Que nos prendem como garras
A um passado tão duro.
Esquece o tempo e a dor,
Pensa só no nosso amor,
Vem, dá-me a tua mão.
Sobe comigo a encosta,
Porque quando a gente gosta
Ninguém cala o coração.
Despedimo-nos hoje da nossa querida amiga Maria Luísa, que gostava de escrever versos para fado, muitos dos quais ficaram muito bem entregues na voz da Katia Guerreiro, com quem tinha uma relação maternal e de grande amizade. Nunca esquecerei esse momento, a Katia junto do caixão, cantando Asas, mais uma vez, com uma voz que lhe nascia da dor. Adeus, querida Luísa. Um abraço forte ao nosso amigo João.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Black Coffee

Só para contrariar e fugir à febre do Black Coffee, que já não se aguenta. E porque todos são bons pretextos para ouvir esta senhora cantar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

contos de Natal

Nem sempre os pinheiros são verdes
Poética Edições
Vários autores

A Poética Edições, na pessoa da Virgínia do Carmo, desafiou-me a mim e a alguns dos seus autores a escrever um conto de Natal. A edição resultou num livro escrito a várias vozes, com timbres muito diversos, que vão do registo mais clássico ao mais transgressor, pois....nem todos os pinheiros são verdes. A capa é uma pintura original a óleo, realizada por Lídia Borges, uma das autoras na presente edição. É com grande prazer que me vejo incluída nesta antologia, cujo lançamento acontecerá no próximo Sábado, em Lisboa, e que em breve estará à venda nas livrarias Férin, Ler Devagar e Pó dos Livros, em Lisboa, além de poder ser encomendado online, na loja virtual da Poética Edições, da Bertrand, Sítio do Livro e Wook

domingo, 20 de novembro de 2016

Camus em tempo de chuva

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«Mersault continuava a traduzir "vegetables, vegetables", de olhos postos no candeeiro, com o abat-jour de cartão verde plissado. Tinha em frente dele um calendário de cores garridas que representava "O perdão dos Terra-Novas". Sobre a mesa, alinhavam-se a esponja para os selos, o mata-borrão, o tinteiro e a régua. Das janelas podiam ver-se enormes pilhas de toros de madeira trazidos da Noruega por cargueiros pintados de branco e de amarelo. Apurou o ouvido. Do lado de lá daquela parede, a vida respirava a grandes golfadas, surdas e profundas, sobre o mar e o porto. Tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto...»
(Albert Camus, in "A Morte Feliz", p.54, obra póstuma, a partir de manuscritos e notas que antecederam "O estrangeiro").


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

sábado, 15 de outubro de 2016

Até quando?

Em arrumações no meu escritório minúsculo, e que mais minúsculo se torna dada a minha dificuldade em mantê-lo arrumado e em deitar fora o que pode ir fora, dou conta de que, graças às novas tecnologias e, em especial, ao recurso à Internet, muitos objectos se tornaram obsoletos. Refiro-me, por exemplo, às gramáticas e aos dicionários - português-inglês, inglês-português, francês, espanhol, latim, sinónimos, provérbios...

Os meus olhos assustam-se ao vê-los, não vá eu precisar deles debruçados nas folhas de papel amarelecido e nas letras tão pequeninas que preenchem as páginas daqueles livros malditos. Sabem-se incapazes dessa aventura antiga; só de lupa e mesmo assim. Imploram-me, por favor, dicionários desses nem vê-los, por favor! 
E têm toda a razão, os meus olhos. 
Para quê estes cartapácios pesados e poeirentos, que ocupam espaço precioso, quando as respostas às nossas perguntas se encontram ao alcance de meia dúzia de cliques? Um Google Tradutor, que despacha num segundo, embora falível, um pequeno texto ou uma frase? 
Por brincadeira, ao escrever isto abro o Google e experimento. De inglês para sueco, já que o Bob Dylan ontem ganhou o Nobel da Literatura:
The answer my friend
Is blowing in the wind

E ele escreve a resposta quase simultaneamente, sem que eu faça o mínimo esforço:

svaret, min vän blåser i vinden, Svaret blåser i vinden

Não há competição possível.
Por isso sei que mais dia menos dia terei de me desfazer dos velhos dicionários. Aqueles que ainda levam a assinatura do meu pai, com o seu nome completo e a data, ou a minha, mais tarde, com letra de adolescente, ou ainda os comprados até 2002, pouco antes de o Google e a Wikipedia entrarem pelas nossas casas transformando-nos, aos poucos, em preguiçosos. 
Um dia. 
Para já, ficaram fechados no armário, a roubar espaço também precioso. Para as estantes, apenas a literatura. E essa, até quando a guardaremos nas nossas estantes?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Nobel da literatura para....

Bob Dylan:
«Por ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana»